O Poema Proibido

– Eu vejo gente morta.

O médico encarou a jovem em sua frente com precisão. Ela vestia uma camiseta amarrotada e uma legging até o joelho. É como se tivesse resolvido marcar uma consulta no psiquiatra no meio de uma caminhada porque se lembrou que estava vendo gente que não existia.

A garota esfregava uma mão na outra e não conseguia deixar as pernas quietas. “Ele não vai acreditar em mim!”, ela deveria estar pensando.

– Todos os dias? – perguntou o médico.

– Todo o tempo.

– Quem são essas pessoas mortas? Você acha que conhece elas?

– Na verdade, é apenas uma garota.

O doutor a encarou por cima de seus óculos miúdos e percebeu que agora ela parecia mais nervosa do que antes, mais trêmula e sua respiração ficara ligeiramente mais pesada.imagemtextopoema

– Quem é essa garota?

– Não conheço. É uma jovem, não deve ter mais do que 13 anos. Tem os cabelos pretos e longos, que cobrem toda a sua cara. Ela também fede. Tem cheiro de podridão!

– Faz muito tempo que você a vê?

– Semana passada eu li um poema. Eu não lembro o nome dele, mas estava traduzido do japonês. Dizia: “você não deve ler esse poema em voz alta, ou algo muito ruim irá acontecer com você.” Mas eu queria provar que isso tudo era uma baboseira. E , então, eu o li em voz alta.

A garota começou a tremer mais ainda e agora encarava os livros que estavam na estante, como se de repente eles parecessem mais interessante do que a conversa que estava tendo com o seu médico ou talvez achasse que todos aqueles livros sobre Transtorno Bipolar e Déficit de Atenção fossem lhe dar uma resposta.

– Sobre o que falava esse poema?

– Eu não lembro ao certo. Acho que era sobre uma garota e ela foi para o inferno.

– Você acha que está vendo ela? Acha que é ela que está perseguindo você?

– Você acredita nessas coisas? Quero dizer, eu li o poema porque eu não acreditei que algo ruim iria acontecer comigo e agora estou vendo essa garota que saiu do inferno para me perseguir. Você não acha que é muita coincidência?

– Às vezes um evento em questão pode ter feito você perceber que algo não está completamente certo com você.Talvez você já estivesse vendo pessoas que não existem antes de ler esse poema.

– Mas eu sinto o cheiro dela. Parece ser tão real!

O médico ficou pensativo por um momento, encarando a garota que balançava as pernas nervosamente.

– Tudo bem – disse ele puxando um pedaço de papel -, eu não posso afirmar o que você tem. Vou prescrever um exame neurológico para ver se você não sofreu nenhum trauma no crânio. Vou lhe dar meu telefone, caso você precise de mim.

Ele entregou a folha com a prescrição dobrada para ela, que não hesitou em pegar.

– Não posso lhe dar nenhum remédio, sem saber exatamente o que você tem. – acrescentou – Por favor, remarque uma consulta após fazer esse exame.

Ela balançou a cabeça concordando com ele e levantou se curvando ligeiramente e, agradecendo a consulta, foi em direção à porta. Foi quando ele a parou.

– Espere! Quando ficar pronto, não se esqueça de me avisar.

– Ah, mas eu vou marcar outra consulta. Por que eu…

Então ela viu que ele estava com um grande sorriso na cara. O papel da prescrição que estava em sua mão parecia mais sólido. Ela o pegou e abriu. Nele estava escrito em letras garrafais:

“BOA SORTE COM O SEU LIVRO.”

Nota: Agradecimento ao Medo B. Foi de lá que tirei inspiração para esse conto. ;)

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Um pensamento sobre “O Poema Proibido

  1. Muito bom.
    Eu não esperava o final, achei que era uma maluca.

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